Frases Famosas

"Existe mais filosofia em uma garrafa de vinho que em todos os livros." Louis Pasteur

sábado, 27 de fevereiro de 2016

As fragrâncias do vinho

Piti Reali

“...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas” (O Perfume - Patrick Süskind).
Piti Reali
Aroma de rosa


Podemos dizer que o olfato é o “sentido perdido”, relegado a um ostracismo de séculos. Este atalho a sentimentos puros e profundos caiu em desuso pelo homem moderno. Um resgate dos cheiros, no entanto, tem acontecido nas últimas décadas, e o vinho é um dos agentes deste revigoramento de nossos narizes. A bebida de Baco é um elemento importante de filosofias contemporâneas como o hedonismo, o esoterismo e o culto à vida saudável.

Também se pode dizer que, com as modernas técnicas de elaboração e consumo da bebida (fermentação a frio, engarrafadoras automáticas, uso de leveduras selecionadas, maior higiene e esterilização das cantinas, movimentação no mosto por gravidade, novas técnicas de poda e condução das vinhas, adegas climatizadas, termômetros digitais, taças high-tech), os vinhos, especialmente os brancos, nunca foram tão perfumados como hoje.



Tentar descrever verbalmente as fragrâncias de um vinho se assemelha a um mergulho em águas profundas de um mar de sensações e prazeres mudos e indescritíveis. Exprimir através da linguagem o que o nariz percebe em uma taça é tarefa árdua, uma herança daninha da insignificância da olfação no Ocidente dos últimos séculos.

Apresentar o vinho ao nariz talvez seja o estágio mais instigante de uma degustação. Os preceitos básicos para qualquer tipo de prova de vinhos são: taça e temperatura adequadas e, no que diz respeito à análise olfativa, é necessário utilizar a memória e a imaginação. Deve-se fechar os olhos, inspirar e procurar ver com o nariz. Depois, comparar os aromas percebidos com aqueles que estão armazenados no banco de dados de cheiros do cérebro. Para os que possuem um repertório limitado, não há motivo para preocupação, o tempo e prática ampliarão esta lista até que atinja milhares de fragrâncias catalogadas. É importante dar nome a cada odor identificado, desta maneira, ele ficará registrado para sempre.

fotos: Piti Reali

Em uma análise mais técnica dos aromas, vários aspectos são verificados:

● Sanidade: se o líquido não cheira a nada desagradável ou estragado, como o que chamamos de bouchonné (rolha), por exemplo.
● Intensidade ou ataque aromático: é a quantidade de aroma, o impacto do líquido em nossas narinas.
● Complexidade: a variedade de cheiros, ou quantidade de diferentes essências que podem ser reconhecidas.
● Reconhecimento: identificar e nomear os aromas que compõe o aroma final.
● Qualidade: item subjetivo, ligado ao gosto pessoal do degustador.
● Originalidade: considerando alguns odores como banais e outros como raros e intrigantes.
● Persistência: quanto tempo a sensação permanece em nosso olfato.
● Evolução: aromas evoluem à medida que o líquido é aerado. Com alguns minutos ou até algumas horas na taça, aromas novos podem surgir.
● Aroma de boca: as impressões retronasais são percebidas através da comunicação interna da boca com o nariz.

O aroma de boca é diferente do de nariz, pois a saliva aquece e intensifica a evaporação.

Podemos ainda agrupar os aromas da seguinte maneira, citando alguns exemplos:
fotos: Piti Reali
Aroma de noz


Florais: acácia, rosa, violeta, flor de laranjeira, tília, narciso, jasmim.
Frutas cítricas: limão, laranja, maçã verde, tangerina, abacaxi.
Frutas vermelhas: amora, cassis, morango, framboesa, groselha, cereja, ameixa.
Frutas amarelas: pêssego, damasco, manga, pêra, melão.
Frutas naturalmente secas: amêndoa, avelã, noz.
Frutas secas, cristalizadas, em calda e geléias: ameixa seca, figo seco, uva passa, geléia de amora.
Especiarias: pimenta do reino, noz moscada, anis, cravo, canela.
Vegetais: feno, musgo, capim, grama cortada, pimentão verde, azeitona, tabaco.
Animais: couro, pelica, urina de gato, âmbar, almíscar, suor.
Herbáceos: hortelã, sálvia, aneto, orégano, manjericão, alecrim, pinho, manjerona.

fotos: Piti Reali

Minerais: pedra de isqueiro, petróleo, terra.
Tostados: café, chocolate, caramelo, pão torrado, amêndoa torrada.
Químicos: asfalto, vinagre, gás de cozinha.
Outros: defumado, mel, manteiga, baunilha, cedro, carvalho, cogumelo, mofo, álcool, levedura, leite, tartufo, cascas de pão, enxofre.

Os aromas de um vinho também podem ser classificados em: primários, secundários e terciários. Os primários são os provenientes das variedades de uva com as quais o vinho foi feito, (Cabernet Sauvignon ou Chardonnay, por exemplo). Os secundários são os aromas que a bebida adquiriu em elaboração (fermentação e amadurecimento em barris de carvalho, por exemplo). Os terciários são os perfumes que o líquido ganhou ao longo de seu envelhecimento em garrafa. A palavra bouquet se refere apenas a aromas terciários, ou seja, este termo se aplica somente a exemplares envelhecidos.

Os aromas primários são os mais frescos, normalmente do grupo dos frutados, florais, vegetais, herbáceos e minerais. Os secundários ficam no grupo das madeiras, manteiga, tostados, leveduras, enxofre etc. Os terciários são mais etéreos e fechados, como os odores animais, químicos, mofo e tartufo.
fotos: Piti Reali
Aroma de pimenta-do reino


Utilizando criteriosamente o olfato, pode-se dizer muito a respeito de um vinho: sua idade, em que país/região foi produzido (se era uma região quente ou fria, chuvosa ou seca, por exemplo), sua assemblage (os tipos de uva que o compõe), como foi produzido (que tipo de fermentação sofreu, se passou por estágio em madeira e em que tipo de madeira). Essências de banana, por exemplo, são típicos de um Beujolais Noveau; pedra de isqueiro nos lembra um Chablis; cheiro de petróleo é característico dos Rieslings da Alsácia; pimentões verdes são associados à Cabernet Sauvignon; perfume de pêra é comum em Processos; os vinhos portugueses feitos com a cepa Touriga Nacional nos remetem a violetas; enquanto Chadonnays quase sempre trazem abacaxis frescos ou em calda entre seus aromas. É possível, também, identificar, usando apenas o olfato, se o vinho amadureceu em barris de carvalho, por seu cheiro de baunilha e de tostados. Aromas de manteiga indicam que um vinho branco sofreu uma desacidificação (a fermentação malolática).

O perfume de frutas tropicais indica que a bebida sofreu uma fermentação mais longa e a frio.

A alma de um vinho, sua impressão digital, o que realmente distingue um exemplar de outro, é seu aroma. O mundo nunca viu tantos degustadores profissionais ou amadores como hoje.
Os cursos de degustação pululam e nestes um dos pontos focais é o olfato. Por isso podemos concluir que o nobre fermentado está revolucionando o cheirar, trazendo de volta um sentido abandonado há tempos.

Original:  http://revistaadega.uol.com.br/artigo/os-aromas-do-vinho_7172.html

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